A intervenção no Ueno Bank, uma das maiores instituições financeiras do Paraguai, desencadeou uma crise econômica e política no país. Com aproximadamente 3 milhões de clientes, o banco teve suas operações suspensas após o Banco Central paraguaio identificar uma deterioração grave de seus indicadores de solvência. A medida deixou correntistas temporariamente sem acesso às contas e ampliou a pressão sobre o governo do presidente Santiago Peña.
A decisão foi anunciada em 3 de novembro de 2026, após a identificação de que o índice de solvência da instituição havia caído para menos da metade do mínimo exigido pela legislação. O procedimento de resolução prevê a avaliação dos ativos e passivos do banco e a adoção de medidas para proteger os depositantes e preservar a estabilidade financeira.
O caso ganhou dimensão nacional porque o Ueno Bank também administra centenas de milhões de dólares em recursos públicos. Além disso, a crise colocou sob questionamento as relações entre os controladores da instituição, integrantes do governo e dirigentes responsáveis pela fiscalização do sistema financeiro.
O que aconteceu com o Ueno Bank?
O Banco Central do Paraguai iniciou o processo de resolução do Ueno Bank depois de constatar a insuficiência de seu índice de solvência. O problema foi identificado após ajustes nas demonstrações financeiras da instituição durante um processo de regularização.
Com a intervenção, os serviços do banco foram suspensos, incluindo o acesso pelo aplicativo e o funcionamento dos cartões. Clientes procuraram agências em busca de informações sobre seus recursos, enquanto aposentados e trabalhadores que utilizavam a instituição para receber pagamentos também foram afetados.
A Superintendência de Bancos deverá examinar a situação patrimonial da instituição e conduzir os procedimentos necessários para definir o tratamento dos depósitos e das demais obrigações financeiras.
O Ueno Bank pertence ao Grupo Vázquez e ganhou espaço no mercado paraguaio por meio de sua atuação digital, da emissão de cartões de crédito e da expansão de sua base de clientes.
Clientes poderão recuperar o dinheiro?
A principal preocupação dos correntistas é a recuperação dos valores depositados. No Paraguai, o Fundo de Garantia de Depósitos prevê cobertura de até 75 salários mínimos por pessoa ou empresa em cada instituição financeira. Na data da intervenção, o limite correspondia a aproximadamente 228,3 milhões de guaranis, cerca de US$ 38 mil.
Segundo estimativas divulgadas pelas autoridades, o valor seria suficiente para cobrir integralmente os depósitos de aproximadamente 97% dos clientes do banco. Para os correntistas com saldos superiores ao limite garantido, entretanto, a recuperação dos recursos depende da apuração patrimonial e dos procedimentos previstos na legislação.
O Banco Central também anunciou a previsão de um primeiro pagamento de até 10 milhões de guaranis aos depositantes, enquanto o governo passou a discutir medidas para acelerar a liberação dos valores.
A suspensão dos serviços provocou apreensão entre clientes que dependem da instituição para despesas cotidianas, como aluguel, alimentação e transporte. A situação também afeta aposentados que recebem benefícios por meio do banco.
Crise ameaça recursos públicos e previdenciários
O impacto da intervenção ultrapassa os clientes particulares. O Ueno Bank mantém entre US$ 800 milhões e US$ 850 milhões em recursos públicos, incluindo aproximadamente US$ 380 milhões vinculados ao sistema estatal de previdência e saúde, segundo informações divulgadas pela imprensa internacional.
O Instituto de Previdência Social do Paraguai, conhecido como IPS, possui investimentos na instituição e utiliza seus serviços em operações relacionadas ao pagamento de aposentadorias.
A exposição de recursos públicos ampliou a preocupação sobre os efeitos da crise nas contas governamentais. As autoridades precisam avaliar a situação financeira do banco, identificar os ativos disponíveis e definir como as obrigações serão cumpridas.
Até o momento, o Banco Central sustenta que o episódio está concentrado no Ueno Bank e não representa, necessariamente, uma crise generalizada do sistema bancário paraguaio.
Presidente do Banco Central renuncia em meio à crise
A intervenção também provocou mudanças na cúpula da autoridade monetária. Carlos Carvallo apresentou sua renúncia à presidência do Banco Central após um pedido de Santiago Peña. Ele, porém, informou que permaneceria no cargo durante a condução do processo de resolução.
A saída ganhou repercussão porque Carvallo havia presidido o próprio Ueno antes de assumir o comando do Banco Central, em 2023. A trajetória alimentou questionamentos sobre a fiscalização da instituição financeira e a independência dos órgãos reguladores.
O Ministério Público paraguaio também passou a investigar suspeitas de irregularidades relacionadas às operações do banco. Entre os pontos sob apuração estão possíveis empréstimos excessivos a empresas ligadas ao grupo controlador. Autoridades judiciais determinaram medidas contra dirigentes e pessoas relacionadas à instituição.
As suspeitas ainda precisam ser apuradas e não representam, por si só, uma conclusão judicial sobre a ocorrência de crimes.
Relação entre Santiago Peña e o grupo controlador aumenta pressão política
A crise ganhou contornos políticos em razão dos vínculos empresariais anteriores entre o presidente Santiago Peña e o Grupo Vázquez, controlador do Ueno Bank. Peña manteve participação no conglomerado até março de 2025, antes de se tornar alvo de novos questionamentos sobre sua relação com o grupo.
A proximidade entre integrantes do governo, dirigentes do banco e autoridades responsáveis pela fiscalização ampliou a pressão da oposição e de parlamentares por esclarecimentos sobre a supervisão da instituição.
O episódio também colocou em discussão a atuação do Banco Central diante do crescimento acelerado do Ueno e de questionamentos anteriores sobre operações de crédito envolvendo empresas relacionadas aos seus controladores.
Peña defendeu a responsabilização dos envolvidos em eventuais irregularidades e buscou acelerar medidas legislativas para viabilizar os pagamentos aos depositantes e proteger os recursos públicos.
Crise pode afetar a imagem do Paraguai para investidores
A intervenção ocorre em um momento no qual o Paraguai busca atrair investimentos estrangeiros, com destaque para empresas interessadas em sua carga tributária relativamente baixa e nas perspectivas de crescimento econômico.
A crise do Ueno Bank, no entanto, pode afetar a confiança de investidores na capacidade de fiscalização das instituições financeiras do país. A exposição de recursos públicos e os questionamentos sobre possíveis conflitos de interesses aumentaram a atenção dos mercados sobre os desdobramentos do caso.
Títulos do banco e papéis da dívida paraguaia também sofreram pressão em meio à repercussão da intervenção.
Apesar disso, as autoridades paraguaias afirmam que a situação é específica do Ueno Bank e que os demais bancos continuam operando normalmente. A extensão dos prejuízos e os efeitos sobre a economia dependerão da apuração dos ativos, da recuperação dos depósitos e das medidas adotadas para restabelecer a confiança no sistema financeiro.